terça-feira, 28 de dezembro de 2010

"O tempo e a vida..."

Mãos dadas

"Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.


Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.


O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente."


Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

"A mídia e o social..."

     Diante da gama informacional pela qual passamos na atualidade, entre os anos de 2000 e 2010, considera-se estruturante o papel da mídia na sociedade.  Ora, utilizamos como termo conceitual o seguinte: meio de comunicação responsável pela transmissão de informações (por informação entende-se tudo que orienta e disciplina a parcela social). Dessa forma, o órgão detentor dos veículos de comunicação utiliza-se de ferramentas para multiplicar os interesses da parte dominante para a manutenção de sua posição elitista.
      Tal conservação se dá de modo quase imperceptível, a propagação midiática não esboça maiores esforços no exercício do seu papel hegemônico, atribuindo-lhe um caráter global e natural mediante simbologias e rituais atuantes no subconsciente, nas relações interpessoais e nas estratificações do cotidiano vital, encerrando a força coercitiva das estruturas sociais na construção dos estados normativos (influência na sociedade).
    Essas estruturas, carregadas de ideologia, propagam-se na densidade social (coletivizações de massa, tanto no espaço micro quanto no macro). Nós, os indivíduos, por nossa vez, incutimos tais ideias em nosso dia-a-dia, transmitindo-as em nossa vida comunitária e moldamo-nos (pensamento, consciência e virtude) por uma obediência tal a ponto de enxergarmos tais "verdades" como únicas e necessárias. No entanto, não percebemos a parede de vidro pela qual estamos nos norteando.
     É estritamente necessário, pois, não apenas compreender a urgência de mudança no sistema político e econômico, mas, sobretudo, desmascarar o caráter alienante provocado pela força da mídia na opressão no mundo material e subjetivo.

Ramiro Teixeira, 18/10/2010.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

"Artisticamente imitada: A vida!..."

     "Ando tão apertada de costura que se o dia tivesse vinte e cinco horas ainda sobrariam três ou quatro botões para pregar. Essa vida anda depressa demais. Quando menos imagino, o dia já se foi, esse desaforado!
     Vivo para ajeitar as mulheres. Prepará-las para ocasiões. São jantares, casamentos, formaturas. Vivo para ajudar a esconder os defeitos(...) Em situações mais raras saliento as virtudes.(...)
     Eu me exercito no ofício de costurar tecidos desde os 16 anos. Herdei o dom de minha mãe, que por sua vez o herdou de minha avó. Uma ancestralidade!
    Fazer roupas é um jeito de ver os bastidores dos acontecimentos. Enquanto todo mundo vê a roupa por fora, eu a vejo por dentro, nos seus avessos. O que vejo do tecido é sua sustentação primeira, sua trama. Um tecido só é bonito de verdade à medida que possui um avesso que o sustenta. A beleza externa só tem sentido porque há um alicerce no contraponto. Interessante, mas as pessoas são semelhantes aos tecidos. Se não há uma trama de sustentação, não há beleza que possa sobreviver aos desmandos do mundo.
(...)
     Mulheres por dentro e por fora. Mistérios que me despertam coragem para continuar costurando. Minha máquina é minha realidade. É dela que parto para os meus sonhos. O que materialmente corto, ajusto e costuro, de alguma forma repercute dentro de mim. Eu toco constantemente os bastidores da vida. E é a partir desses avessos que construo pontes que me levam para outros mundos.
     Eu costuro a realidade com linhas de sonhos. Imagino. E no ato de imaginar sou retirada para dançar, repito a sobremesa, comento a elegância dos adornos; troco olhares com o garçom. Rodopio enquanto danço pelo salão; recebo elogios pela escolha do penteado, a seda do vestido. Tudo isso sem sair de minha máquina. As linhas que entrelaçam os tecidos suturam o meu coração a realidades inexistentes.
     E por isso sou especialista em ver além das aparências. Sei do que os tecidos são capazes e as viagens que proporcionam. Se não tivesse essa habilidade não me restaria muita coisa. A vida na castidade, o corpo preservado, as pernas sem destinos, os cabelos sem fitas, o pescoço sem colares. A vida mais perfeita e absoluta normalidade. Nenhum risco no calendário, nenhum dia convidado a sair do esquecimento, nenhum convite pregado na geladeira, nada que anuncie um sábado com aspecto de primavera: horário marcado no salão, atenção especial para um corte de saia e blusa, retoque de tinta no sapato de ocasião.
      Eu viajo é nas cores de tecidos. Quilômetros e quilômetros de linhas que me levam pelo mundo afora. O meu porto é a minha máquina.(...)
De Belo Horizonte a Paris eu levo um segundo. Não pago passagem, nem tenho problema com excesso de bagagem. Eu sou leve. Esqueço as roupas. Volto pra buscar. Troco a cena. Mudo o clima.
      Faço vir a chuva para dormir logo. Invoco o sol para o meu mergulho e imagino a neve para amenizar o calor. Acendo lareiras nas noites frias; encontro a promissória perdida; ganho na loteria, e divido o prêmio com os pobres.
    Na angústia adio a decisão. Na agonia antecipo o fim. Na alegria prolongo o início. O tempo não tem poder sobre minha velha máquina de costura. Ela o desafia constantemente. Desafio que demonstra intimidade, parceria. Minhas pernas não andam, mas chegam. Chegam aos lugares que aos sonhos pertencem.
(...)
      O ritual do sepultamento terminou ali, na ressurreição que a máquina de costura me proporcionou.
    Há coisas que a morte não sepulta porque pertencem à vida eternizada(...)"

(Mulheres de Aço e de Flores, de Fábio de Melo; 15ª edição, páginas111-121: A costureira; Gente Editora)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

"Detalhamentos e Ponderação..."

     Habituados a ser "engolidos" pelo que nos é apresentado rotineiramente, nem sempre despertamos para o entendimento adequado dos fatos aos nossos contextos, sejam casuais ou causais, pois para melhor aproveitamento das notícias, das soluções propostas, das argumentações, das conclusões, e de tudo mais que abarque a série de respostas para as conflitantes instruções diárias, é preciso um olhar atento sobre as minuciosidades do todo.
     Para atingir o objetivo(não proposto pela força ideológica) da vida comunal, da vida sociável em partilha com os indíviduos, geralmente julgados pelas aparências de suas atividades culturais, sociais, políticas, ou mesmo sem pretexto significativo, não podemos nos prender a meros estereótipos. Ora, os valores morais das pessoas não são rigorosamente iguais, umas adotam certos discursos de verdade, outras os desconhecem e recriam suas próprias habilitações no convívio entre seus pares. No entanto, na análise total dos fatos, todos apresentamos uma semelhante estrutura de vida(a de sobrevivência!).
    É necessários, pois, pormenorizar as ações, as situações de cada povo, atribuindo-lhes caráter não diferente, mas, próprio, particular, essas diversidades não devem ter juízo de valor, mas de agregação. O respeito com o qual merecem ser tratadas não têm mérito pejorativo, e sim, construtivos de sua peculiaridade.
    Assim, é louvável valorizar o conhecimento dos detalhes disfarçados na correria do dia-a-dia. Atingimos um grau tão elevado de instantaneidade, a ponto de não mais nos ater em discussões epistemológicas(quem trata disso é taxado das mais inúmeras maneiras de se nomear um "faz-nada"!). É uma corrida a todo momento pelo resultado final, que já nem nos damos conta de viver as etapas orientadoras para as finalidades humanas. Além disso, o conhecimento humano e sua natureza perdem espaços para as máquinas.
     Seguindo a ideia de vários provérbios, exortações, ensinamentos, onde o todo aparece como conjunção de infinitas partes, apreende-se a modalizar a importância de cada particularidade na construção de alguma coisa, seja ela um texto, um livro, uma música, um relacionamento amoroso, amigável, uma sociedade etc. O detalhamento, a arte de serem perceptíveis e de percebermos os detalhes contribuem significativamente para a lógica da criação(se é plausível falar disso!).
     Pela consideração de que tudo devidamente tratado na vida é um risco, apostaria na dinâmica entre ponderação e detalhes!

Ramiro Teixeira.

domingo, 31 de outubro de 2010

"Fantasia cultural e artística..."

"E se, de repente
A gente não sentisse
A dor que a gente finge
E sente
Se, de repente
A gente distraísse
O ferro do suplício
Ao som de uma canção
Então, eu te convidaria
Pra uma fantasia
Do meu violão..."
(Chico Buarque de Holanda)

     Fantasia é algo para o qual as pessoas se projetam numa tentativa de refrigério, de fuga da "enclausurante" rotina, como as celebrações carnavalescas medievais, nas quais esquecia-se a posição nobre para desfrute(da libido!). Para isso são utilizados vários meios no prosseguimento da imaginação humana, seja através da História, das artes, da cultura, da mesma forma em que há as diversas maneiras de se viver em fantasia.
     Ora, por mais que estejam no campo político e social democrático, as eleições modernas brasileiras estão repletas dessa característica fantasiosa artística. Vivemos um certo querer de mudança da realidade na qual estamos inseridos, e o sistema político do Brasil nos convida pelo inverso a essa mudança: uma alienação pela qual entende-se a realidade como favorável para cada eleitor do candidato "Tal". Utiliza-se o discurso(na política) sério para enganar o cidadão quanto à sua posição social, cultural e educativa, não o faz pensar: demagogia.
     A arte politicamente social construtiva do indivíduo não causa impacto positivo proporcional ao seu valor, é encarada como mera brincadeira e passageira, como simples fantasia, fuga da realidade. No entanto, se prestarmos um pouco mais de atenção às letras devidamente "suadas", poderíamos recolocar os papeis destinados a cada seguimento da sociedade, e a "fantasia do violão", de Chico, não se resumiria a meros acordes.
       Bom, hoje é o dia do 2º turno das eleições à presidência da República, e as pessoas "brigam" pelos seus candidatos, como se houvesse algum diferente em alto grau de transformação social.
Como diz um colega de sala nas discussões em Ciências Sociais, "acredito mais na arte que na política".

Ramiro Teixeira.